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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

CIA, o braço armado do imperialismo

Editorial do site Vermelho:

A divulgação na última quinta-feira (26 de outubro) de documentos da CIA sobre a morte do presidente John F. Kennedy, ocorrida em 1963, mostram que, tratando-se das ações do imperialismo dos EUA, a vida pode ir muito além da ficção.


Os documentos descrevem operações da CIA com conhecimento direto das mais altas autoridades do governo dos EUA, inclusive do presidente da República, ao qual muitas vezes se reportavam diretamente.

Revelam aquilo que já se sabia ou suspeitava – o envolvimento da CIA com a máfia em ações ilegais. E o uso de artifícios letais, que vão desde pílulas envenenadas até roupas de mergulho contaminadas, para matar o líder da revolução cubana.

Em certa altura, revela que o governo dos EUA contrataria um assassino de aluguel, da máfia, por 150 mil dólares, para matar Fidel Castro.

Entretanto, o mais aterrador é a revelação do documento de detalhes sobre a chamada Operação Recompensa (Bounty Operation), onde há uma lista de quanto seria pago pelo assassínio de desafetos dos EUA, e detalha preços e funções. Diz, textualmente: a Operação Recompensa se destina a “fornecer incentivo aos cidadãos cubanos para derrubar o regime comunista” e estabelece “um sistema de recompensas em dinheiro compatíveis com a posição e o status para matar ou entregar comunistas vivos conhecidos”. Os preços, em dólar, para estes assassínios variam de 5.000 a 20.000 para os funcionários de escalão inferior (designados como “informante”), 97.000 para “comunista estrangeiro” e 100.000 para funcionários do governo.

É uma lista de preços típica de uma organização criminosa, e revela o baixo nível a que o governo dos EUA chegou em suas ações antidemocráticas contra a soberania dos povos.

A lista de crimes do imperialismo e dos EUA é extensa. Ela inclui ações contra comunistas, nacionalistas e democratas pelo mundo afora. O documento se refere a várias. O imperialismo e o governo dos EUA, associados a bandidos, agiram contra o líder congolês Patrice Lumumba (1961), os nacionalistas João Goulart no Brasil (1964) e o indonésio Sukarno (1965). Apoiou e financiou o golpe de estado de Augusto Pinochet contra Salvador Allende, no Chile (1973). 


São apenas algumas ações criminosas, lista à qual se podem acrescentar outros atentados e violações da soberania nacional como o patrocínio de esquadrões da morte na Nicarágua e El Salvador, desde a década de 1970, as ações e o assassinato de líderes antiimperialistas como Sadam Hussein e Muamar AL-Kadafi, e o financiamento e apoio da oposição de direita a Hugo Chavéz e seu sucessor Nicolás Maduro, na Venezuela, ou contra Evo Morales, na Bolívia, e Rafael Correa, no Equador, ou a tentativa infrutífera de deposição do presidente sírio Bashar al-Assad.

A CIA e outros serviços de espionagem dos EUA (com destaque para a Agência de Segurança Nacional, a NSA, sigla em inglês para National Security Agency) agem na ilegalidade, de mãos dadas com o crime organizado, para agir contra governos, em especial os patriotas, democráticos e populares, que se oponham aos interesses dos EUA. São o braço armado e criminoso da ação do imperialismo.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

INTERVENÇÃO MILITAR NO BRASIL JÁ!

Hecilda Veiga - uma guerreira desconhecida


Paulo Fonteles (pai)
Esse título sobre intervenção militar foi proposital. Uma provocação, uma forma de fazer com que os "meninos" que vivem com esse slogan nos lábios leiam. Se bem que a galera com esse perfil não é lá muito chegada a leitura, mas quem sabe?! Como professor, tenho que tentar com insistência. Quem não viveu ou conheceu a história do período da ditadura militar no Brasil corre um grande risco de se tornar fantoche nas mãos de pessoas má intencionadas e até fazer papel de tolos. E vou logo adiantando que não sou contra os militares. Eles exercem um importante papel constitucional em nossa sociedade. Sou contra sim, a barbárie que aconteceu no Brasil entre 1964 a 1984 em nome da defesa da ordem. Em qualquer país civilizado, o poder militar deve estar sob a tutela do poder civil. Esse é o consenso para garantir a soberania e a democracia.

Mas quem é Hecilda Veiga, apresentada no subtítulo?
Paulo Fonteles Filho
É uma professora da Universidade Federal do Pará casada com Paulo Fonteles de Lima e mãe do Paulo Fonteles Filho, que faleceu na manhã do dia 26 de outubro de 2016. Paulinho, como era conhecido, nasceu nos porões da ditadura em 1972 e, depois teve o pai assassinado por pistoleiros em 11 de junho de 1987 na BR 316 em Ananindeua. Paulo Fonteles (pai), advogado e militante político lutava contra os grileiros e defendia os trabalhadores pobres. Resistiu a tortura nos porões da ditadura - junto com sua esposa Hecilda - mas não resistiu a pistolagem do Pará. Os mandantes nunca foram a julgamento.

Paulinho (Paulo Fonteles Filho), a exemplo do pai, também era advogado, foi vereador de Belém e exercia um importante papel político na defesa dos direitos humanos. Poeta, blogueiro, filiado ao PC do B, membro da Comissão da Verdade do Pará (comissão que apura os crimes da época da ditadura), foi traído por um infarto fulminante. Teve uma vida marcada pela tragédia desde o seu nascimento e partiu de forma trágica com apenas 45 anos.

Mas voltando a Hecilda Veiga, que continua viva e com um intenso brilho no olhar, mesmo com tanta tragédia e tanto sofrimento em sua vida.Tive a honra de ser aluno dessa guerreira na disciplina Ciência Política na UFPA. Compartilho seu depoimento para ajudar a nova geração a entender um pouco sobre a ditadura militar e se livrar das idéias e influência dos "mitos" que se colocam como salvadores da pátria e fazem apologia a ditadura e exaltam torturadores.

Hecilda Veiga
"Quando fui presa, minha barriga de cinco meses de gravidez já estava bem visível. Fui levada à delegacia da Polícia Federal, onde, diante da minha recusa em dar informações a respeito de meu marido, Paulo Fontelles, comecei a ouvir, sob socos epontapés: 'Filho dessa raça não deve nascer'. 
Depois, fui levada ao Pelotão de Investigação Criminal (PIC), onde houve 
ameaças de tortura no pau de arara e choques. Dias depois, soube que Paulo
também estava lá. Sofremos a tortura dos 'refletores'. Eles nos mantinham 
acordados a noite inteira com uma luz forte no rosto. Fomos levados para o 
Batalhão de Polícia do Exército do Rio de Janeiro, onde, além de me colocarem na cadeira do dragão, bateram em meu rosto, pescoço, pernas, e fui 
submetida à 'tortura cientifica', numa sala profusamente iluminada. A pessoa 
que interrogava ficava num lugar mais alto, parecido com um púlpito. Da 
cadeira em que sentávamos saíam uns fios, que subiam pelas pernas e eram 
amarrados nos seios. As sensações que aquilo provocava eram indescritíveis: 
calor, frio, asfixia. De lá, fui levada para o Hospital do Exército e, depois, 
de volta à Brasília, onde fui colocada numa cela cheia de baratas. Eu estava 
muito fraca e não conseguia ficar nem em pé nem sentada. Como não tinha 
colchão, deitei-me no chão. As baratas, de todos os tamanhos, começaram a 
me roer. Eu só pude tirar o sutiã e tapar a boca e os ouvidos. Aí, levaram-me 
ao hospital da Guarnição em Brasília, onde fiquei até o nascimento do Paulo. 
Nesse dia, para apressar as coisas, o médico, irritadíssimo, induziu o parto e 
fez o corte sem anestesia. Foi uma experiência muito difícil, mas fiquei firme 
e não chorei. Depois disso, ficavam dizendo que eu era fria,, sem emoção, sem 
sentimentos. Todos queriam ver quem era a fera' que estava ali.

HECILDA FONTELLES VEIGA, ex-militante da Ação Popular (AP), era estudante de Ciências Sociais quando foi presa, em 6 de outubro de 1971, em Brasília (DF). Hoje, vive em Belém (PA), onde é professora do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará (UFPA)"

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Como proteger nossas crianças da degeneração moral da rede globo e das falsas obras de arte que tentam destruir as famílias de bem.

Nos últimos dias, de forma extremamente agressiva, imperou nas redes sociais uma verdadeira cruzada contra a Rede Globo e contra as exposições de arte nos museus Brasil afora. O principal argumento é a defesa das criancinhas inocentes que estão sendo expostas a pornografia e sofrendo ataques na tentativa de desconstruir a família. Nunca se falou tanto em “princípios morais”, em “honra”, em “família e cidadão de bem”.

Todos os que conhecem um pouco da história do Brasil sabem que a Rede Globo não passa de um instrumento de manipulação ideológica comprometida com um projeto oligárquico de poder e com uma elite corrupta que gasta bilhões para difundir seus ideais. Ela já nasceu com esse princípio fim em plena ditadura militar, quando a família Marinho ganhou a concessão com o compromisso de defender a qualquer custo a ditadura militar. Ao longo dos anos, a Globo de forma bastante competente vem usando a inocência e a falta de formação do povo para manipular eleições e produzir comportamentos, criando uma massa dócil e obediente. Quem não se lembra do episódio do “caçador de marajás”?

Apesar dos constantes alertas da classe intelectual que tenta produzir raciocínio crítico na massa, ninguém nunca deu bola para o caráter manipulador da Globo e até defendeu-a. Por que toda essa histeria agora? Outro dia recebi de uma amiga uma mensagem pelo whatssApp com um convite de boicote a Globo. Nela, apresentava a figura da logomarca da emissora com o símbolo do comunismo no círculo central. Fiquei pensando: até onde vai a ignorância do ser humano? Quer dizer que a maior empresa representante do capitalismo brasileiro agora se converteu ao comunismo? Agora já é demais para a minha inteligência. Lembrei dos tempos da guerra fria onde os capitalistas selvagens se aproveitavam da ignorância do povo para difundir que os comunistas eram terroristas que comiam criancinhas e destruíam as famílias. Parece mentira, mas em plena era da informação, em pleno século XXI, ainda tem comunista comendo criancinhas! Há, há, há!

Arte de Michelangelo na capela Sistina
O outro vilão da história, o demônio comedor dos princípios morais e instrumento de degeneração das famílias são as obras de arte. No velho estilo das cruzadas, dos defensores da moral e dos bons costumes, recheado com a santa inquisição, esses arautos da moral saem pregando o fechamento de museus e classificando o que é arte e o que é abominação. De repente, um bando de incautos que nunca passaram perto de um museu viraram “especialista e crítico de arte moderna”. 

Assim como aconteceu com a Rede Globo onde ninguém nunca deu a mínima ao seu conteúdo manipulador e agora transforma-a num demônio, as diversas manifestações artísticas nunca causou sentimento de indignação a ninguém. E olhe que em se tratando de arte, desde os tempos antigos, os
Arte na praça de Florença
museus, as igrejas, as praças estão cheias de arte com exposição de corpos nus, com gravuras eróticas, com cenas homossexuais e outras “imoralidades”. A capela Sistina no Vaticano, o Museu Louvre em Paris, a Praça Della Signoria em Florença, o Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro que o digam. E ninguém nunca deu a mínima. Por que o motivo dessa repentina histeria e indignação?

Maquiavel explica


Em 1513, o filósofo Nicolau Maquiavel escreveu sua mais importante obra que causou uma revolução e expôs os tabus dos velhos conceitos de política, poder e religião. Maquiavel declara que o príncipe não precisa ser amado; o que ele realmente precisa é não ser odiado. E aqui, Maquiavel apresenta o ódio como um importante combustível que pode destruir um principado e recomenda que esse sentimento seja controlado pelo “príncipe” tirano afim de controlar o povo e manter sua dominação.

Atualmente, os “príncipes” – os tiranos que estão no poder graças a dominação da mente das massas – usa o princípio maquiavélico de forma invertida e contra o povo. Essa elite descobriu que o ódio pode ser um importante aliado para controlar e manipular as massas no século XXI. O importante é dar a essa massa algum motivo de ódio para que ela use todo o seu fígado e os falsos princípios da moral e dos bons costumes e canalize essa energia contra os que ameaçam o sistema de poder e corrupção. E, de quebra, ainda mantêm essa massa longe das discussões da conjuntura política e funciona como uma cortina de fumaça. Assim, se derruba uma presidente e faz o povo pensar que era contra a corrupção. Antes, difundiu-se o ódio contra Lula e o PT, mas como isso não está dando mais resultado, descobriram um grande filão para manter o espírito de ódio e intolerância do povo: a moral e os bons costumes. Eles sabem que o povo brasileiro foi educado ao longo dos anos para ser moralista. Agora o ódio é capitalizado para outra frente de batalha: os membros do poder são flagrados com malas de dinheiro e ninguém fala nisso; o senador Aécio Neves aparece pedindo dinheiro a um empresário e dizendo que mata quem delatar e o Supremo e o senado livram a cara desse senador, e fica por isso mesmo; o presidente Michel Temer é denunciado duas vezes por formação de quadrilha e corrupção ativa e passiva e os deputados são comprados na cara dura para garantirem que esse presidente não será investigado, e o povo não se manifesta; esse mesmo presidente retira direitos trabalhistas, dilapida o patrimônio nacional, vende a Amazônia, entrega o pré-sal aos estrangeiros, legaliza o trabalho escravo, tira verba dos programas sociais para dar as empresas, inviabiliza a aposentadoria dos pobres... e o povo? O povo está discutindo o que é e o que não é arte. Está em cruzada contra museus para salvar as criancinhas enquanto milhares de crianças sofrem violência sexual, e, em muitos casos, dentro de suas próprias casas.

Muitos pais que estão preocupados com o que os filhos assistem na TV e com a influência maligna das obras de artes, sequer vão à escola dos seus filhos ou sabem o nome de pelo menos 2 dos seus professores. Assim, deixo aqui algumas dicas e contribuições para evitar que nossas crianças se degenerem e se percam, levando assim a destruição das “famílias de bem”. Apreciem e usem sem moderação. Se concordar, deixe o seu comentário. Se não concordar, comente também e critique a vontade. Se desejar, compartilhe.

· Eduque seus filhos para que eles sejam pessoas de bem. Ensinamentos teóricos são importantes, mas a boa prática é indispensável. Portanto, não vale aquela frase: “faça o que eu digo e não o que faço”.

· Ensine a seus filhos os valores éticos e aplique-os sempre dentro e fora de casa. Não adianta nada você ensinar seu filho ser honesto e sair com ele na garupa da moto desviando de blitz por estar ilegal. Ensine e pratique ética sempre.

· Lembre-se: cabem aos pais o papel de educar os filhos. À escola, cabe apenas o papel de ensinar e instruir. Se a família não educa, ele será educado pela televisão, pelo traficante, pelo cafetão ou pelo sistema. E a escola poderá fazer muito pouco.

· Conheça a escola do seu filho. Participe das reuniões com alegria, visite e converse com professores e procure saber o nome de cada um. E, nunca fale mal da escola diante dos filhos.

· Ensine e incentive seus filhos a terem espírito crítico e a fazerem escolhas. Mas lembrem-se: as escolhas são deles. Você apenas ensina a fazer boas escolhas, mas não são donos dessas escolhas. Seus filhos não são seus objetos ou fantoches que reproduzirão aquilo o que você quer. Até mesmo Deus que é DEUS deu o livre arbítrio aos homens.

· Incentive seus filhos a praticarem princípios religiosos, mas princípios voltados para a verdadeira fé pautada nos exemplos de Cristo, e não para o fanatismo e a intolerância. Esses conceitos levaram a crucificação de Cristo e continuam presentes dentro de muitas igrejas.

Se você ensinar esses princípios aos seus filhos, fique tranquilo. Eles poderão assistir a qualquer programa da Globo ou de outra emissora e vão usar o censo crítico, o filtro para não se deixar influenciar. Não será a televisão que vai degenerar seu filho. Eles poderão ver qualquer arte sem preconceito e não será um quadro, gravura ou exposição que vai transformá-lo num homossexual, num depravado ou imoral.

E para finalizar, recomendo atenção. O processo de degeneração de nossas crianças, o processo de destruição dos princípios familiares e dos bons costumes estão acontecendo dentro de casa. Os primeiros defeitos e as primeiras qualidades aprendemos dentro do lar. Nenhuma criança é normal vendo a família pregar o amor e praticar a intolerância e a violência; nenhuma criança pode ter um futuro decente vendo o pai ensinar honestidade e usar o whatssApp para informar aos amigos que está havendo blitz ou falar com orgulho que deu R$100 para o guarda para liberar o carro; nenhuma criança pode ser decente vendo os pais procurando políticos para pedir favores pessoais ou dinheiro em troca de voto.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

HOMENAGEM AOS PROFESSORES - SÓ PARA SACANEAR...

Professor Fernando completou em fevereiro de 2017, trinta anos de dedicação exclusiva ao magistério. Pensou até em fazer uma festa de comemoração, mas preferiu deixar para outra ocasião. Quem sabe, nos quarenta anos, a situação esteja melhor e haja algum motivo para comemorar?

Começou a lecionar numa pequena escola da periferia de Marabá-PA. No começo, tudo era sonho. Planos de aulas inovadores, teorias pedagógicas revolucionárias, ideal de transformar o Brasil através da educação... O professor Fernando vibrava! Seus olhos brilhavam a cada etapa no início de sua carreira. Mesmo com as limitações, a falta de recursos, falta de valorização da carreira do magistério, falta de compromisso dos governantes, falta de papel, de giz, falta de... ele continuava otimista e mantinha a esperança de que um dia tudo haveria de melhorar. "Um dia esse país vai tratar o professor como ele merece. Um dia a educação será valorizada nesse país e o Brasil será um gigante, uma potência mundial" - sonhava Fernando.

Fizesse sol ou desabasse uma tempestade, professor Fernando sempre estava firme e forte. Com seu planejamento sempre atualizado, ele trabalhava sempre com o brilho no olhar e com o compromisso de quem quer deixar um legado para a humanidade. Nunca faltou ao seu trabalho, exceto nas raras exceções que adoecera em função da rotina da profissão, e mesmo assim, sempre dava um jeitinho de ir à escola. Professor Fernando era daqueles abnegado, comprometido até demais.

Sua missão de educar ultrapassava as fronteiras dos muros da escola e atingia toda a comunidade. Além da formação pedagógica, oferecia também orientações de cidadania, ética e, sempre dava um jeito de envolver as famílias no processo de formação. E ainda tinha tempo de organizar o sindicato dos trabalhadores em educação. Como militante, acreditava sempre na luta como forma de avançar e conquistar dias melhores.

Os anos se passaram e o professor Fernando via com desespero a educação se afundar e se degenerar no seu estado e no seu país. A cada ano, sofria com as crescentes faltas de recursos, o sucateamento das unidades escolares, a desvalorização dos professores, o descrédito e apatia da comunidade escolar. As constantes greves já não surtiam resultados, a não ser a depreciação e o desgaste dos próprios professores que tinham que repor aulas aos sábados e estender o ano letivo num círculo vicioso que não tinha fim. Antes, o apoio da comunidade era um alento, agora, notava-se um crescente clima de hostilidade e até agressões. "Esses vagabundos só querem viver fazendo greve", "não querem trabalhar e ficam prejudicando os alunos" - ouvia dos pais indignados. Ultimamente, um outro problema vem se agravando na realidade dos professores: a violência em sala de aula. O professor vem sendo destituído de sua autoridade natural e isso vem abrindo espaço para as ações de violência e desrespeito dentro e fora de sala de aula.

Se antes o objetivo do professor Fernando era mudar o sistema, agora lutava com todas as forças para não deixar o sistema lhe mudar. Queria preservar pelo menos a sua capacidade de sonhar. Assistia com tristeza os seus colegas professores desanimados e descrentes diante da realidade. Via professores novatos chegarem na escola cheios de sonhos e entusiasmos, e, no meio do ano letivo mudarem completamente o estado de ânimo. Ouvia colegas comentando que não tinha mais solução, que não adiantava dar murro em ponta de faca. "Vamos cozinhar esse galo bem devagar" - comentava um professor com ironia. "Calma colega, você não vai mudar nada aqui. O sistema não deixa" - falava outro com descrença. "Ei professor, vá enrolando um pouco aí senão vão te chamar de caxias". "Senta aí rapaz, o sinal já tocou mas ainda não é o fim do intervalo. Relaxe!" - brincava uma professora.

Em abril de 2017 o professor Fernando recebeu um comunicado da Secretaria Estadual de Educação  (SEDUC) onde convocava-o para comparecer na sede da capital em 24 horas para resolver pendências. Não havia a mínima condição de cumprir àquela convocação. A capital ficava a 700 quilômetros de distância, além da falta de tempo e condições financeiras para a locomoção. Enviou uma resposta por SEDEX onde justificou a impossibilidade do comparecimento no prazo. Solicitou um prazo maior e sugeriu que enviassem as passagens ou agendasse para a 4ª URE (Unidade Regional de Ensino) que fica no seu município. A SEDUC ignorou sua resposta e mandou mais uma convocação. Mais uma vez ele respondeu e nada. Recebeu a terceira e quarta convocação. "O que está acontecendo? Esse povo está se fazendo de doido? Nem se dignaram a responder minhas justificativas e sugestões!" - pensou indignado o professor Fernando. E foi à Belém ver do que se tratava a convocação, pois a última falava de uma dívida do professor com o estado.

O professor Fernando chegou a Belém todo apreensivo e curioso. Enfim, iria conhecer a sede da Secretaria Estadual de Educação. Antes, deu uma passada no palácio da justiça. Um antigo prédio onde funcionou uma das escolas mais antigas de Belém - Colégio Lauro Sodré. Ficou encantado com a suntuosidade, o luxo e a organização do local. Piso em porcelanato, salas amplas e bem iluminadas,, mobília impecável, paredes decoradas com obras de arte, jardins externos bem conservados, funcionários sorridentes e prestativos... Enfim, um ambiente perfeito onde tudo funcionava perfeitamente. "Se o palácio da justiça é assim, a sede da educação deve ser muito mais bonita" - pensou encantado o professor Fernando. Com essa empolgação, tomou um coletivo e seguiu rumo a avenida Augusto Montenegro para a Secretaria Estadual de Educação. Enquanto se equilibrava em pé no coletivo lotado ia pensando nas possibilidades: "quem sabe eu consigo falar com a secretária de educação? Quem sabe ela não me ouve e leva em conta minhas idéias para modernizar a educação do Pará? Pelo menos a coordenadora do setor de recursos humanos vai me atender e perceber que foi um engano e eu não devo nada ao estado".

Ao descer do coletivo em frente ao prédio da SEDUC o professor Fernando não acreditou no que seus olhos insistiam em mostrar. Esfregou os olhos na esperança de ser uma ilusão de ótica. "Será que era esse mesmo o endereço?" - pensou incrédulo. Realmente não era nenhum engano. Aquele prédio velho, sombrio que mais parecia um mausoléu abandonado era a sede da educação do estado do Pará. Caminhou decepcionado e, a medida que se aproximava a visão era mais surreal. Entrou no bloco indicado e caminhou pelos corredores sem acreditar no que via. Paredes velhas e descascadas que pareciam não ver uma demão de tinta há 20 anos. Nas salas observava fiação exposta, tetos com sinais de infiltrações, mobília velha e danificada, cartazes velhos fixados na parece sobre restos de cola e papéis grudados. O cheiro de morfo misturado com odor de curtume dominavam o ambiente. Em cada sala que entrava mais se surpreendia com a visão. Via mesas entulhadas com pilhas de papéis dando a impressão de que estavam ali há uns 30 anos. Em outras mesas notava pratos sujos e restos de comida. "Que horror! Isso é a sede da educação? Agora entendo porque nada funciona nas escolas" - pensou assustado o professor.

O professor Fernando foi tratado com descaso e desdém na SEDUC. Parece que ninguém queria ouvi-lo. Um lhe mandou esperar pois estava no horário de almoço. "Uai, mas a convocação diz que eu deveria comparecer das 8 às 14 horas. Ninguém me avisou que tinha intervalo para almoço" - resmungou desanimado. Após longa espera onde ele observava servidores manuseando celulares, conversando ao telefone, conversando despreocupado com colegas, mexendo nos computadores, uma moça com jeito de assessora de funerária anunciou: "entre que a 'dotôra' vai te receber. Ao entrar na sala da "dotôra" cumprimentou-a com cortesia: "olá, boa tarde. Sou o professor Fernando de Marabá." "Pois não professor!" - murmurou com mal humor a servidora sem ao menos levantar os olhos. No momento veio instantaneamente na cabeça do professor a música do Chico Buarque de Holanda: "de tanto gorda a porca já não anda... (cálice). "A senhora quem é?" - perguntou Fernando. "Sou a ouvidora" - respondeu secamente. "A senhora ouvidora tem um nome que eu possa chamá-la? - perguntou insolente. 

A conversa foi frustrante e decepcionante. O professor descobriu que tinha uma dívida de 19.899,00 com o estado e como não havia atendido às 4 convocações, já fora encaminhada para a dívida ativa e em breve seu nome constaria no cadastro negativo. "Seu nome ficará sujo até o senhor pagar o que deve", sentenciou com crueldade e sadismo a servidora.

O professor Fernando saiu da sala frustrado e sem esperança. Do lado de fora, sentou-se num banco de madeira e chorou. Pela primeira vez sentiu que todo o seu trabalho ao longo dos trinta anos não valeu de nada. "Vou desistir de ser professor, não vale a pena. Esse estado de vampiros não merece meu sacrifício, minha dedicação. Vou pedir minha aposentadoria antecipada mesmo perdendo a metade do meu salário. Para esse Estado não trabalho mais"- desabafou sozinho.

Na viagem de volta o professor Fernando vinha matutando e pensando nos procedimentos burocráticos para pedir a antecipação de sua aposentadoria. Um filme com sua história de professor passou pela sua cabeça misturada com as imagens dos cenários e das pessoas que vira na SEDUC. De repente, deu um estalo como se uma luz tivesse acendido em sua cabeça. "Mas não é exatamente isso o que esses vampiros querem? Todo esse sistema não está organizado justamente para isso? Querem mais é que os bons desistam, querem comer o nosso cérebro, matar nossos sonhos. Só assim, o Estado ficará livre para montar seu exército de zumbis e formar uma geração de jovens alienados, imbecilizados e dóceis. Aí o serviço ficará completo e a corrupção, a iniquidade e a imoralidade prosperarão".

O professor Fernando sorriu num tom triunfal e bradou: "Só pra sacanear não vou desistir de ser professor! Só pra sacanear vou ser ainda melhor! Só pra sacanear vou ser um professor ainda mais comprometido! Só pra sacanear vou ministrar aulas mais estimulantes, vou conquistar meus alunos, os pais dos meus alunos e meus colegas professores! Só pra sacanear vou tirar um tempo das minhas aulas para dedicar aos ensinamentos dos conteúdos transversais! Vou promover mais debates sobre os direitos humanos, sobre cidadania, sobre ética, responsabilidade... e sobretudo sobre os instrumentos de alienação e dominação da classe política e do Estado! Só pra sacanear!




segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Bolsonaro e seu discurso de ódio em Belém


Avanço do autoritarismo assanha os militares

Por João Filho, no site The Intercept-Brasil:

Como se fosse um beatle nos anos 60, Bolsonaro foi recepcionado por centenas de viúvos da ditadura militar no aeroporto de Belém na última quinta (28 de setembro). A cena se repete em todas as cidades que visita em sua campanha eleitoral antecipada: uma claque emocionada carrega o deputado pelo aeroporto debaixo de um coro de vozes graves que repete enlouquecidamente “mito! mito! mito”. Em discurso, o vice-líder na corrida presidencial pediu uma salva de palmas para o general Mourão e fez uma promessa: “Comigo não vai existir o politicamente correto. Vocês terão armas de fogo.”

A recepção foi organizada pela bancada da bala paraense, composta por ex-militares e abrigada pelo PSD. É essa gente do bem que está investindo na candidatura de Bolsonaro.

O deputado federal delegado Éder Mauro (PSD) gastou R$ 14 mil - do seu próprio bolso, segundo ele - para espalhar 400 outdoors pela cidade homenageando Bolsonaro. Mauro já foi alvo de um inquérito no STF (arquivado pelo Gilmar Mendes) por prática de tortura - uma das vítimas era uma criança de 10 anos - e é investigado por outros crimes, como extorsão e ameaça. Ele também defende abertamente um golpe militar no país. O vereador Sargento Silvano (PSD), conhecido na capital paraense por ser um policial casca-grossa, também contratou outdoors. Bastante ativo nas redes sociais, ele costumava gravar vídeos pregando a bíblia ao lado dos subordinados antes de operações policiais. É essa gente do bem que está investindo na candidatura de Bolsonaro.

No mesmo dia em que a bancada da bala paraense se divertia com seu presidenciável, o Estadão publicava editorial alertando para as “soluções extravagantes” que começam a surgir diante da grave crise institucional que abala o país.

A pretexto de ilustrar essas ideias pouco republicanas, o jornal decidiu publicar dois textos de opinião: um de um membro Judiciário e outro do Exército. No primeiro, um desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo defende a judicialização da política. Para ele, o judiciário não está usurpando o poder legislativo, mas cumprindo um dever. No segundo, este muito mais assustador, o Estadão ajuda a engrossar o coro do general Mourão e abre espaço para outro general fazer sérias ameaças contra a democracia. Intitulado “Intervenção, legalidade, legitimidade e estabilidade”, o texto de Luiz Eduardo Rocha Paiva trata um possível golpe militar como uma solução legítima se a “crise política, econômica, social e moral chegar a extremos.”

O texto começa lamentando não haver dispositivo legal que autorize a tomada de poder pelas Forças Armadas, mas conclui afirmando que isso não será um empecilho. Trata-se de um verdadeiro atentado contra a Constituição. O discurso é exatamente o mesmo que nos levou ao golpe de 1964: as Forças Armadas trariam ordem para um sistema político caótico e corroído pela corrupção. Alguns trechos são para deixar qualquer democrata de cabelo em pé:
“A intervenção militar será legítima e justificável, mesmo sem amparo legal, caso o agravamento da crise política, econômica, social e moral resulte na falência dos Poderes da União.”

“Em tal quadro de anomia, as Forças Armadas tomarão a iniciativa para recuperar a estabilidade no País, neutralizando forças adversas, pacificando a sociedade, assegurando a sobrevivência da Nação”

“A apatia da Nação pode ser aparente e inercial, explodindo como uma bomba se algo ou alguém acender o pavio. Na verdade, só o STF e a sociedade conseguirão deter o agravamento da crise atual, que, em médio prazo, poderá levar as Forças Armadas a tomarem atitudes indesejadas, mas pleiteadas por significativa parcela da população.”
Por mais que saibamos que o Estadão sempre esteve do lado errado da História, apoiando com entusiasmo o golpe militar de 1964, o golpe parlamentar de 2016 e o governo Michel Temer, não é possível que, em pleno 2017, o jornal dê voz para uma nova conspiração dos militares. Em um momento em que a onda reacionária vai se agigantando, fica difícil engolir a justificativa de que a publicação desse discurso golpista tenha como objetivo “ilustrar o pensamento de uma solução extravagante”. Aliás, qualificar como “extravagante” o que deveria ser considerado um crime contra a democracia, não pode ser encarado como uma simples escolha semântica equivocada.

A opinião do general é clara, direta e, somada à coluna de Mourão, também publicada pelo Estadão, não deixa dúvidas de que os quartéis nunca estiveram tão assanhados desde o regime militar.


No mesmo dia, o Congresso aprovou uma alteração na lei eleitoral que permite censurar conteúdo nas redes sociais sem necessidade de ordem judicial. A reação contrária foi imediata e fez Temer vetar o trecho de censura. Mas é mais um exemplo de como o espírito autoritário tem rondado a democracia brasileira.

Um outro projeto aterrorizante patrocinado pela bancada da bala foi incluído na pauta de votações da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara. De autoria do deputado e ex-coronel Alberto Fraga (DEM-DF), o projeto de lei garante a policiais militares de todo o país acesso irrestrito a dados pessoais de qualquer cidadão brasileiro. Sim, exatamente como acontecia durante a ditadura militar. É curioso ver como essa gente, tão preocupada com a democracia venezuelana, não tenha pudor algum em expor sua sanha autoritária no Brasil.

Percebam a quantidade de patentes militares que foram citadas nesta coluna. É coronel, é delegado, é sargento. Tirando os generais colunistas do Estadão, todos os demais foram democraticamente eleitos, mas invariavelmente aparecem apresentando projetos antidemocráticos e exaltando golpes militares. Esse é um preço alto que o Brasil paga por não ter julgado corretamente os assassinos e torturadores da ditadura. Décadas depois, os criminosos nem parecem tão criminosos assim.
Esse é um preço alto que o Brasil paga por não ter julgado corretamente os assassinos e torturadores da ditadura.Por não termos passado a limpo judicialmente os diversos crimes cometidos pelo Estado na ditadura, ainda há quem acredite não ter havido corrupção naquele período. Eleger militares que exaltam os anos de chumbo não parece um absurdo aos olhos de parte considerável da população. Pelo contrário, eles podem até virar ˜mitos˜.

Pesquisa encomendada pelo Datafolha revelou que os brasileiros, motivados principalmente pela violência urbana, têm alta tendência a apoiar teses autoritárias. Numa escala que vai de 0 a 10, os brasileiros atingiram o elevadíssimo índice de 8,1 na propensão a endossar posições autoritárias.

Muitos apontaram um pessimismo excessivo da minha parte na última coluna. Bom, passada uma semana, informo que o meu pessimismo subiu e, numa escala de 0 a 10, atingiu o índice de 9,75.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

VARANDA CULTURAL - UM BANHO DE CULTURA PARA A ALMA E PARA A MENTE


A APL - Academia Parauapebense de Letras, em parceria com o Partage Shopping promoverá um grande evento literário denominado "Varanda Cultural". Será uma grande oportunidade para conhecer os escritores e a literatura de Parauapebas e região, além de desfrutar de uma agradável programação com muitas novidades.

Sabemos que a leitura faz a diferença na vida das pessoas e todos os grandes vencedores tiveram uma coisa em comum: o gosto pela leitura. Nessa ótica, a Academia Parauapebense de Letras vem desenvolvendo várias atividades para resgatar e incentivar a prática da leitura como reforço intelectual.

Será uma programação voltada para toda a família,
bem como para os estudantes de todos os níveis e a população em geral. Além dos escritores, teremos exposição de livros, exposição de caricaturas dos escritores, leitura de crônicas, poesias, recitais, varal literário, dança de salão, sequestro literário, música ao vivo e muitas outras surpresas. O público será a estrela principal!

Teremos a participação especial da Escola de Dança Arte e Vida, do artista plástico Afonso Camargo, de escritores regionais e diversos talentos de Parauapebas.

Data: 26 de agosto de 2017
Horas: 17h as 19h - música ao vivo e exposições.
     19h às 22h - apresentações literárias e show local. 

Prepare sua caravana e venha desfrutar da noite mais agradável e surpreendente de sua vida.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A ADESÃO DO PARÁ À INDEPENDÊNCIA - UM BLEFE QUE DEU CERTO.

Você sabe por que é feriado aqui no Pará no dia 15 de agosto? Conhece a história da adesão do Pará à independência?

Fiz essa pergunta aos meus alunos e, pasmem, nenhum sabia a resposta. Podemos seguramente medir o desenvolvimento de um país por dois fatores: o domínio da língua mátria e o domínio da sua história. Isso é assustador, pois aqui, a maioria dos nativos falam e escrevem algo  parecido com a língua portuguesa e ignoram quase que completamente a nossa história.

Costumo chamar esse feriado de "feriado da vergonha", pois, somente depois de 11 meses e oito dias, as autoridades paraenses resolveram aceitar a independência e deixar de ser uma colônia de Portugal, e mesmo assim, por medo. Foi preciso um blefe para aceitarem a independência.

Selecionei um texto para ajudar os leitores a compreender um pouco dessa história. Recomendei aos meus alunos, mas, infelizmente, dos 1.200, talvez uns vinte leiam.

Leia com calma, sem pressa e ajude a tirar o país da ignorância, pois a falta de conhecimento é a maior arma dos corruptos e lacaios.

Boa leitura!

Adesão do Pará à Independência do Brasil!

Prof. Leonardo Castro

Até o começo da segunda metade do século XIX, a Amazônia tinha a sua sede em Belém; o que hoje corresponde ao atual Estado do Amazonas ainda era subordinado, como capitania, ao Pará. As autoridades portuguesas, que sempre dedicaram uma atenção muito especial a esta região, tinham bases administrativa e econômicas muito sólidas. Proclamada a Independência do Brasil, em 1822, poucos reflexos o fato despertou no território paraense. Apenas alguns idealistas pugnavam pela separação de Portugal. Mas, sem a ajuda do novo Império, nada poderiam fazer contra as forças militares sediadas em Belém, que continuavam fiéis a Portugal. As oposições entre grupos civis e militares se fazia no meio da nova vida política com eleições para as Juntas e com a presença dos líderes. A vida no Pará foi marcada, durante uns 14 anos, por diversas rebeliões e acontecimentos dramáticos.

Em 1823 nas eleições são vitoriosos os partidários da emancipação política da Colônia. Os defensores da vinculação do Pará à metrópole portuguesa tentaram anular a eleição, mas sem sucesso. Em março deste mesmo ano, a tropa prende os membros da Junta e restabelece uma Junta favorável aos interesses de Portugal. Em abril de 1823 há a revolta em Belém e Muaná dando apoio à Independência do Brasil e do Pará.

O sentimento separatista se refletiu por ocasião das eleições realizadas para a primeira Câmara Constitucional de Belém, no dia 25 de fevereiro de 1823. Vereadores brasileiros foram eleitos, enchendo de espanto e revolta o comandante das Armas, general José Maria de Moura, e seguidores de sua linha de fidelidade ao governo português. Os descontentes reuniram-se a fim de ser estudada uma atitude a tomar. Foi concedido o plano de anular o pleito. No dia primeiro de março, o coronel João Pereira Vilaça mandou prender, em suas próprias residências, os componentes da Junta, restabelecendo a antiga Câmara, composta de conservadores. Os detidos foram deportados para diversos pontos do interior amazônico. O líder Batista Campos escapou, escondendo-se na mata próxima de Belém.

Contudo os partidários da Independência não haviam desistido, e tiveram início reuniões secretas, principalmente na casa de um italiano, de nome João Balbi, na rua do Laranjal. Os membros trataram em conseguir apoio militar, que veio através do capitão Domiciano Ernesto Dias Cardoso, do capitão Boaventura Ribeiro da Silva, entre outros. Os conspiradores acertaram o movimento para a madrugada do dia 14 de abril. Ao amanhecer, o 1º regimento surgiu à rua Santo Antônio. Vinham à frente, o comandante das Armas, José Maria de Moura, o coronel Vilaça e o Coronel Francisco José Rodrigues Barata (bisavô de Magalhães Barata). Houveram instantes de indecisão entre os revoltosos, pois até então não havia violência nem mortes. O cadete Bernal do Couto quis disparar uma peça de artilharia. Porém, Boaventura da Silva o impediu. Desta forma, a revolta nacionalista fracassara. Todos os revoltosos foram presos e recolhidos à Fortaleza da Barra (os oficiais) e à cadeia pública (os civis). Entre os civis estavam Bernardo de Souza Franco, cônego Jerônimo Pimentel, José Pio de Araújo Nobre, Honório José dos Santos, Manoel Evaristo da Silva, João Balbi, etc.

Após o julgamento foram condenados à morte. Porém, interferências de pessoas influentes (como o bispo D. Romualdo Coelho), fizeram com que a pena se transformasse em prisão e degredo. Para isto, transferiram-nos para Lisboa. Muitos dos que sobreviveram retornaram ao Pará após a adesão à Independência do Brasil.

O Lord Cochrane, após de se conseguir, no final de 1823, a adesão do Maranhão à Independência do Brasil, voltou à Amazônia, o último reduto português no Norte. Incumbiu o capitão John Pascoe Greenfell para desempenhar a missão. Comandando o brigue (navio a vela) “Maranhão”, com uma tripulação de 96 homens, no dia 5 de agosto, Greenfell tomou rumo ao Pará.

No dia 11, Greenfell enviou à Junta o oficio de Lord Cochrane, avisando que o Brasil, do Sul ao Maranhão, encontrava-se sob o governo de D. Pedro I; faltava apenas o Pará para que a nação ficasse independente. A notícia de que a esquadra de Cochrane se encontrava fora da barra e que se emissário se achava perto da ilha Periquitos, alvoroçou Belém. Foi convocado o Conselho, para discutir o assunto. Após algumas horas de debates, o Conselho decidiu aderir à Independência, contra os votos do general Moura. Lavraram uma ata e enviaram-na a Greenfell. Desta forma, a data de adesão do Pará à Independência do Brasil é 11 de agosto; no entanto, é festejada no dia 15, em virtude de nesse dia ela ter sido oficializada.
Adesão do Pará à independência.
Contudo a eleição da Junta Provisória do Governo, após a adesão do Pará à Independência, não satisfez os nacionalistas. Ela era composta em sua maioria por conservadores. Isso significava que, embora aderindo ao Império Brasileiro, o Pará continuava sendo governado por elementos nitidamente comprometidos com a Coroa Lusa. As preferências dos nacionais dividiam-se entre o cônego Batista Campos e o bispo D. Romualdo Coelho.

Imediatamente após a posse, numerosos brasileiros enviaram à Junta uma petição em que exigiram a demissão de cargos civis e militares de todos os portugueses ou pessoas ligadas ao passado, que de uma maneira ou outra se tinha mostrado contrários à incorporação do Pará ao Império. Como encontraram resistência, uma coluna, sob o comando do alferes Pereira de Brito, dirigiu-se para a residência de Batista Campos. O comandante pediu-lhes que ordenasse a abertura das portas do Trem de Guerra. Apreciando os sucessos, e ante à gravidade da situação, resolveram atender às exigências dos revoltosos, e as portas do depósito de armas foram-lhe abertas. Depois disso, conseguiram que todos os portugueses fossem demitidos de seus cargos públicos e que Giraldo José de Abreu fosse substituído na presidência por Batista Campos.

Entretanto, Greenfell e seus navios estavam fundeados na baía do Guajará. Na noite do dia imediato, sabendo do que ocorria na cidade, mandou seus marujos para à terra a fim de prenderem todas as pessoas que fossem suspeitas, sem obedecer qualquer distinção social. Centenas de pessoas foram aprisionadas. Na manhã seguinte (dia 17), Greenfell mandou que o Parque de Artilharia se postasse no Largo do Palácio. Escolheu entre os prisioneiros cindo deles e mandou fuzilá-los. Mandou prender Batista Campos. A prisão do líder nacionalista foi efetuada pelo capitão Joaquim José Jordão. O inglês mandou amarrar Batista Campos na boca do canhão. No instante em que ia ordenar o disparo, muitas pessoas influentes, que ali se encontravam (entre elas o bispo D. Romualdo Coelho), intercederam e o cônego foi poupado. Todavia, levaram-no preso para bordo do brigue “Maranhão”, sendo de lá transferido para a charrua “Gentil Americana”. Os civis e militares que tinham sido presos na noite de 16 foram coletivamente assassinados no porão do brigue “Palhaço”. Foi a maior chacina que havia ocorrido até então na história paraense; nada menos de 252 pessoas ali perderam a vida. Em outubro de 1823, em Cametá houve uma rebelião contra o morticínio no brigue “Palhaço”, bem como nas vilas de Baião, Oeiras, Portel, Melgaço, Moju, Igarapé-Miri, Marajó, Abaeté, Muaná, entre outras.
Brigue Palhaço. Tela de Romeu Mariz Filho

Referência Bibliográfica
BARATA, Manoel. Formação histórica do Pará. Belém: UFPA, 1973.
PROST, Gérard. História do Pará: das primeiras populações à Cabanagem. Volume I. Belém: Secretaria de Estado de Educação, 1998.
RAIOL, Domingo Antônio. Motins políticos. Belém: UFPA, 1970.
ROCQUE, Carlos. História geral de Belém e do Grão-Pará. Belém: Distribel, 2001.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

11 DE AGOSTO - DIA DO ESTUDANTE

Em 11 de agosto, é comemorado o dia daqueles que dedicam parte de seu tempo aos estudos, é Dia do Estudante. Das crianças da educação básica aos pesquisadores doutores, passando pelos jovens do ensino médio e superior, a data é uma homenagem a todos eles.
Para entender as comemorações desse dia, é preciso voltar na história, pois, em 11 de agosto de 1827, D. Pedro I autorizou a criação dos primeiros cursos superiores no Brasil. Foram criadas as Faculdades de Direito de Olinda, em Pernambuco, e do Largo do São Francisco, em São Paulo, pioneiras no ensino superior.
Dessa forma, a comemoração do Dia do Advogado, que no Brasil também é celebrado no dia 11 de agosto, é uma forma de comemorar o início do ensino superior e das disciplinas jurídicas em solo brasileiro. Em 1927, durante as comemorações do centenário dessa data, o jurista Celso Gand Ley sugeriu que essa celebração fosse mais abrangente, comemorando também o Dia do Estudante.
Outro fato que reforçou ainda mais as comemorações dessa data foi a criação da União Nacional dos Estudantes (UNE) no dia 11 de agosto de 1937. Com o objetivo de representar os estudantes de diversas categorias, a UNE participou de movimentos populares, como as “Diretas Já” e os “Caras Pintadas”.
Outra comemoração ligada à classe estudantil é o dia 17 de novembro, conhecido como o Dia Internacional do Estudante. A data remete à resistência estudantil à ocupação nazista, em 1939, na antiga Tchecoslováquia.
Estudantes no Brasil
Até a criação dos primeiros cursos superiores em solo brasileiro, os jovens que desejassem continuar os estudos deveriam ir para a Europa, possibilidade aberta apenas para os filhos de famílias nobres. A partir de 1827 outras instituições de ensino foram surgindo em virtude da iniciativa pública e também privada.
O acesso à Educação é um direito assegurado pela Artigo 26 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, por isso, vários programas governamentais já foram criados para incentivar a permanência na escola e zerar o analfabetismo.
Uma dessas iniciativas do Governo brasileiro é o Plano Nacional de Educação, que monitora, a cada ano, o número de alunos matriculados na educação básica. Há, ainda, planos para o ensino superior que, além de facilitar a entrada em uma universidade, concedem auxílio para estudantes.
Segundo o Censo Escolar 2015, realizado pelo Ministério da Educação (MEC), quase 40 milhões de brasileiros estão matriculados em escolas de ensino infantil, fundamental e médio. No entanto, 17,3% das crianças com idade entre 4 e 5 anos ainda não estão matriculadas na pré-escola. Outra informação desse levantamento é que 1,6 milhão de adolescentes entre 15 e 17 anos abandonou os estudos antes de terminar o ensino médio.
Mundo Educação.bol

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

COLUNA DO LEITOR - DA SENZALA À GERAÇÃO WI FI

Por José O. Zelão V. Reis.

No final dos anos sessenta e toda a década de mil novecentos e setenta, período conhecido como anos de chumbo da ditadura militar, os movimentos sociais, sindicais e partidários para sobreviver e contrapor às barbáries impostas pelo regime (tanto dos militares quanto dos seus apoiadores - empresários internos e externos), tiveram que agir na clandestinidade - às vezes partindo para o confronto armado, como foi o caso das guerrilhas urbanas no eixo Rio-São Paulo e a guerrilha do Araguaia (debelada em 1975).

Nesse período, também não menos perseguida, sobreviveu fora da clandestinidade a UNE (União Nacional dos Estudantes). A UNE era a voz da juventude e influenciou no Brasil inteiro outros segmentos da classe estudantil e da sociedade como um todo. Na dor pela tortura e na perda pela morte, pelo desaparecimento e pelo exílio, a juventude era a força da esperança, a chama da liberdade, o grito que rompeu fronteiras e a voz que ecoou em distintos continentes e se fez ouvir incansavelmente até que veio a anistia, o primeiro passo para a retomada da democracia.

A transição não foi fácil; mais que transição foi uma imposição negociada: *o primeiro presidente civil pós-ditadura militar foi um fracasso, posto que veio por indicação dos militares; o segundo foi um desastre, visto que veio de uma tradição coronelista do que há de mais arcaico e corrupto do interior nordestino (nada contra os meus irmãos do nordeste, apenas contra os coronéis, não importa de onde o são); o terceiro foi uma farsa trans-vestida de social-democracia, sendo o mesmo um filhote do imperialismo norte-americano - foi um entreguista do patrimônio nacional a preço de bananas às multinacionais.

Mas o povo não se cansou e a luta continuou


A partir daí tivemos treze anos de governo popular, de reconhecimento e respeito internacional, de autoestima de um povo que saiu da linha de miséria e extrema pobreza ao ponto de se tornar modelo para o mundo no combate à fome, na ampliação de vagas nas universidades e do acesso às classes historicamente alijadas do ensino superior e na promoção e desenvolvimento de programas sociais como forma de distribuição de renda.

Isto mexeu com os brios da "Casa Grande" e infelizmente a nossa geração não preparou a geração Wi Fi para usufruir e gozar dessas benesses, conquistadas a ferro e a fogo. A nova geração não sabe de onde/como veio tanta liberdade e tantas oportunidades; apenas enxergam "culpados", como meninos mimados, quando o seu desejo não é satisfeito.

A Casa Grande soube aproveitar o "descuido" da ex-senzala, a insatisfação dos meninos mimados e o deslumbre dos ex-pobres/neo ricos que não entenderam nada e... de novo deu o golpe.

Retrocedendo ao período colonial, resta saber como os ex-ricos agora neo pobres vão se virar para reconquistar o seu lugar ao sol. Se vão lutar como os seus pais ou se vão procurar culpados.

P.S.*

1. Sarney (oriundo da ditadura militar - saiu do PDS e se filiou ao PMDB na última hora, porque a legislação eleitoral não permitia coligação interpartidária, resquícios  do autoritarismo); 
2. Collor -  eleito pelo voto popular - cassado por corrupção ativa);  e
3. FHC - indicado por Itamar Franco, deu sequência ao programa de privatização iniciado por Collor, sob orientação do FMI.

Depois deles até o golpe do Michel houve o período intermediário com Lula e Dilma.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A GUERRILHA CIENTÍFICA NO BRASIL

Por Felipe Melo
No Brasil existe uma forte cultura de superação, seja do que for. O brasileiro gosta de ver seus compatriotas superando dificuldades, que são exaustivamente garimpadas pela mídia e propagadas como exemplos de vida. São os heróis nacionais verdadeiros quase sempre de bolso vazio. Atletas pobres que conseguiram subir ao pódio apesar da infância descalça e faminta. São portadores de deficiência que insistem em exercer sua cidadania em cidades onde só gozam desse direito os donos de carros quando estão enlatados numa dessas armaduras. Quando então alguém encontra e devolve dinheiro alheio garante seu acesso à TV e ao céu, simultaneamente, afinal o maior heroísmo dos brasileiros é a honestidade.
Decidi seguir a carreira acadêmica no Brasil. Após 10 anos como bolsista (graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado), aos 32 anos, fui contratado via concurso público pela UFPE. Então descobri, da maneira mais crua, o que como estudante não tinha vivenciado tão na pele. Fazer ciência no Brasil é um ato de guerrilha, de subversão da ordem cuja gratificação é puramente íntima para uns, ideológica para outros, talvez até um compromisso patriótico para outros tantos, mas sempre uma luta de superação e sem direito ao paraíso. Guerrilha é isso, enfrentar de maneira improvisada as adversidades do cotidiano mirando numa grande missão.
Fui estudante de Biologia na UFPE dos anos 90, a famigerada ‘Era FHC’, quando as universidades se encontravam num estado de penúria crônica. Não havia muitas oportunidades para os poucos estudantes interessados na ciência de Darwin. Éramos majoritariamente brancos de classe média e nossas famílias permitiam que cursássemos uma universidade sem a necessidade de uma bolsa. Alguns tinham bolsas de iniciação científica (PIBIC), um programa concebido para fixar alunos nos laboratórios de pesquisa, único no mundo, mas muito exclusivo. Quando ingressei no mestrado em 2002 na mesma UFPE, tinha que disputar uma das poucas bosas que se dava aos 5 primeiros colocados da seleção. Quando parti para o doutorado em 2004 no México (UNAM), fui com uma das duas bolsas de doutorado que a Capes ofereceu naquele ano para todos os candidatos que concorriam no Brasil na área de Ecologia. Oportunidade maravilhosa para quem nunca havia pisado e terras estrangeiras. Durante esses anos de México vi como de repente, o Brasil estampava a capa da revista Nature. O mundo estava maravilhado com o “foguete” científico do Brasil, que da penúria crônica passou à abundância de recursos e oportunidades, em poucos anos. A ‘Era Lula’ traçou prioridades, acelerou a expansão universitária e inundou os órgãos de fomento federais e estatais com recursos. Bolsas já não eram um problema. Os recursos para pesquisa sujeitos à saudável avaliação por pares eram claramente mais abundantes.
Voltando à UFPE, já doutor em Ecologia, tive uma boa bolsa de pós-doutorado por 18 meses, antes de ser aprovado num concurso. Vi como a graduação tinha mudado. Agora, as turmas de Biologia eram majoritariamente compostas por negros e pardos, em sua maioria mulheres, geralmente da classe emergente da Era Lula. Eram filhos e filhas de pedreiros, domésticas, comerciantes moradores de subúrbios recifenses e cidades próximas misturados aos filhos da classe média. Muitos recebiam uma bolsa que lhes ajudava a pagar passagens, aluguel num quartinho nas proximidades da UFPE (quando eram do interior) e refeições. O programa Ciência sem Fronteira mandava pencas desses estudantes para experimentar o mundo. A UFPE é hoje infinitamente mais diversa que antes, mais alegre, mais inclusiva. A guerrilha dos que me precederam havia ganho uma batalha importante, transformar as universidades, de feudos da elite canavieira pernambucana em uma casa de estudos com portas abertas para o povo brasileiro.
Em termos de pesquisa, íamos “de vento em popa”. Nossa pós-graduação subia de nota a cada avaliação da Capes (hoje somos nota 6 [máximo é 7]) e tínhamos recursos suficientes para pesquisa via órgãos de fomento. Alcançamos 90% dos docentes do departamento como bolsistas de produtividade do CNPq, um luxo. Éramos claramente um centro de excelência no Brasil. Obviamente não era um paraíso, afinal a má gestão das universidades públicas continua causando desperdícios de tempo e dinheiro, além de condições insalubres de trabalho. Como em qualquer guerrilha, apesar das vitórias, continuamos trabalhando em condições insalubres, sem água, energia ou segurança. Um ramal telefônico continua sendo um luxo na UFPE, como nos anos 80, quando até se declarava linha telefônica no imposto de renda. Os vícios do sistema público de emprego ganham expressões máximas nas IFES (instituições federais de ensino superior), atrapalhando o cumprimento da missão das universidades e da produção de conhecimento. Mas o sentimento era de que avançamos muito e já podíamos mirar no horizonte novas missões: internacionalização, inserção social mais efetiva, resolução de problemas do mundo real. Já figurávamos entre os cientistas mais citados do mundo, com destaque em diversas áreas do conhecimento.
Eis que de repente, não mais que de repente, nos mandaram avisar que o dinheiro estava acabando. Era o final do primeiro governo Dilma e depois do maior edital de financiamento que o CNPq já tinha aberto, o Universal de 2013, começavam a chegar as primeiras dificuldades. Parte dos projetos aprovados neste grande edital não foram pagos. No ano seguinte, aconteceu o mesmo e desde então têm sido assim. Nossa pós-graduação que havia ascendido à antessala do paraíso (nota 6) não conseguia pagar nem papel e tinta para emitir certificados. Então, veio a “lapada” (como costumamos dizer aqui no Nordeste) que nos derrubou do foguete em que voávamos, com foguete e tudo. A ruptura democrática experimentada pelo Brasil em 2016 antecedia o desastre total. A fusão do MCTI com as Comunicações e a entrega da pasta a Kassab davam o tom do que se avizinhava inexoravelmente. Nós que antes tivemos acadêmicos no MCTI como Sérgio Rezende agora temos um burocrata golpista. As notícias que antes eram de esperança passaram a ser de terror. Editais de jornalões plantando novamente a sepultada ideia de privatização das universidades. Fim do Ciência sem Fronteira, congelamento de orçamentos da Capes e CNPq, sem falar das fundações estaduais, novamente reduzidas à insignificância da qual algumas haviam emergido embaladas pelo crescimento da produção de conhecimento no Brasil. O exemplo mais emblemático vem do Rio de Janeiro, com sua estatal paralisada há um ano, colegas meus e alunos sem salário e bolsa há quatro meses. Mandaram “fechar a bodega” no Rio. O governo do golpe mandou avisar que produção conhecimento passou a ser luxo. Num governo cadavérico, com fantasmas, vampiros, cramunhões e coisas do gênero, nada mais natural que voltar à escuridão da ignorância.
Foram anos de planejamento, e se tem algo que a classe científica tem como um privilégio é que gerimos a nós mesmos. Os governos oferecem recursos e prioridades mas a execução e planejamento da ciência brasileira é fruto da árvore dos mesmos cientistas guerrilheiros. Somos nós que insistimos na missão, à revelia de qualquer governo. Controlamos os órgãos que nos controlam e financiam (Capes, CNPq) e temos autonomia para decisões que nos afetam. O que fazer agora, com o foguete? Em queda livre? Vamos deixar que se estilhace no chão da ignorância e desgoverno?
Outra vez nos resta tomar o controle das máquinas e guiar esse foguete como se possa para evitar que se quebre. Não podemos permitir que se percam tantos anos de avanços e planejamento por conta dessa aventura golpista que nos impuseram. É hora novamente de nos organizarmos como uma guerrilha. Resistir por birra, por raça, por insurreição, por missão.


Felipe Melo - Professor/Pesquisador - Departamento de Botânica, UFPE